in

Espaço Acadi | Medos, coragens e o conselho para se calar

“Medos bobos e coragens absurdas”.

Acho que, quando crianças, todos operamos dessa maneira. Bom, pelo menos, eu funcionava assim.

Recordo-me de, na época de aluno no ginásio do Regente Feijó, cometer alguns atos nos quais me sobrava coragem e me faltava o juízo – por exemplo, falar em voz alta que tal professora podia se jogar da janela do belíssimo prédio assobradado da escola que, de tão magra, plainaria; desenhar este ou aquele professor mais caricato na lousa com giz; ou, ainda, jogar futebol de tampinha (mesmo com os brados de alerta da inspetora) em plena área do refeitório, driblando bandejas, alunos e cozinheiras.

Coisas bobas mas, para quem, como eu, viveu a escola pública dos anos 80, perfeitamente passíveis de punição. Confesso: eu não era bagunceiro (era na verdade o que chamavam de CDF), apenas ousado quando estava com amigos. Nunca tive problemas disciplinares.

E, aí, vinham os medos: medo de tirar notas baixas, medo do professor de História, de suas “provas surpresas”, medo de decepcionar.

Hoje, adulto, olho para trás e rio de meus medos e de minhas parcas atitudes de coragem.

Sim, porque, agora, os medos são outros. Menos projetivos, mais reais. Por exemplo, medo da violência de São Paulo, medo de um futuro incerto, de não ter uma aposentadoria digna. E, entre esses medos, um que nunca imaginei sentir, mas que é real: medo de dizer o que penso.

A história recente do Brasil (e do mundo) tem mostrado que está se tornando perigoso pensar e se pronunciar de modo diferente da maioria – pelo menos, a maioria no universo em que você está inserido. Constantemente sou alertado e aconselhado a me calar nas rodas de conversas diante de uma ou outra estupidez ideológica e religiosa, as quais, quase sempre, descambam para determinados personagens de nossa medonha cleptocracia e teocracia política. E não importa se o tema é nacional, regional ou local, o conselho é sempre o mesmo: “É perigoso dizer o que se pensa, ainda mais nos dias de hoje, quando não sabemos com quem estamos falando”.

Eu me revolto, porém, tenho que concordar. Quando escutava, de meus pais e tios, sobre censura, imaginava (apenas imaginava) o quão terrível era não poder se expressar – sob risco de perder a vida. Agora, estamos à beira de reviver tal pesadelo – pelo cancelamento nas mídias sociais, pelos haters atrás de um teclado e por aqueles que defendem a tortura e exclusão, mesmo com o crucifixo pendurado no pescoço.

Tristes tempos de grandes medos, e coragens minúsculas. 

Paulo Stucchi
Cadeira Nº 29 I Patrono: João Tibiriçá Piratininga

O post Espaço Acadi | Medos, coragens e o conselho para se calar apareceu primeiro em Jornal Periscópio | Jornal do Povo.

Cinerama | Michael: bom, mas não faz jus ao Rei do Pop

Cinema gratuito em Itu exibe filmes nacionais e clássico