A transmutação de costumes e crenças europeias e africanas ao nosso país, misturadas aos dos indígenas, proporcionou, ao longo de séculos, um mosaico incrível de diversidade cultural, prevalecendo, no entanto, características dos colonizadores, a começar pela língua. No entanto, a aclimatação de tais costumes em terreno tropical fez surgir novos modos de ser e de fazer as coisas, criando muitos “Brasis” em um só.
É assim que a comemoração dos santos juninos – Santo António, São João e São Pedro – ganhou aspectos distantes de seus locais de origem (Portugal e Israel). Aqui, por muito tempo, houve o hábito – e ainda pode haver em algum rincão – de as moças casadoiras esfregarem-se em Santo António, ou castigá-lo virando-o de cabeça para baixo num tanque d’água, com objetivo de arrumar um amor. Ou riscar com facão no tronco de bananeira a primeira letra do nome da pessoa amada, na noite de São João, na esperança de conquistá-la um dia.
No bairro do Varejão, e adjacências (Apotribú, Olhos d’Água), limite entre Itu, Sorocaba e Mairinque, é costume homenagear os três santos juninos de diferentes formas. Com procissões, com fogueiras, com rezas. Até há pouco tempo, muitos sitiantes erguiam um mastro em honra ao santo, enfeitando-o com cipós, galhos de cafeeiro e laranjeira, fincando-o num buraco cheio de ovos, frutas e cereais, espécie de simpatia para pedir aos céus boa safra ao próximo ano. Festa de fim de colheita, que remonta aos povos primitivos, às crenças pré-cristãs, aos celtas que povoaram a Península Ibérica, mas também aos antigos costumes africanos e aos rituais indígenas de agradecimento à mãe natureza.
Na noite mais longa do ano (24 de junho), ao som da viola, o cantador trovava enquanto fiéis carregavam São João e Nossa Senhora, da beira do rio até próximo à fogueira. Pais e filhos davam três voltas em torno do mastro, pedindo aos céus a graça de farta colheita para o futuro:
Ai que encontro tão bonito
Nói tivemo nesta hora
Encontrá com São João Batista
Junto co’a Nossa Senhora, ai!
Um a um, os católicos caipiras molhavam o rosto na água fria que refletia a lua, fazendo preces ao padrinho de Cristo. E as crianças acreditavam piamente nos adultos, que contavam, com muita devoção, que São João vinha visitar o sítio durante a noite, rodeando o mastro, abençoando as roças, molhando os pés no rio, vindo depois “aquentar fogo” perto da fogueira. E o violeiro repicava:
São João já vem do rio
C’os seus pezinho moiado
São João batizô Cristo
Cristo ficô batizado, ai!
A festa ia até noite alta, com muito quentão servido nas canecas de ágata, paçoca de amendoim com farinha de milho, canjica quente e pinhão cozido. Crianças, jovens, adultos e velhos, unidos nas mesmas crendices, em uma rede de solidariedade do bairro rural, hoje tão distante, momentos perdidos na “noite dos tempos”. E os versos na viola:
Glorioso São João
Aqui vai meus parabén
Hoje temo terminâno
Pra vortá ano que vem, ai!
Leonardo Silveira
Cadeira nº 37 I Patrono: Augusto César de Barros Cruz
O post Espaço Acadil | Cultura da terra apareceu primeiro em Jornal Periscópio | Jornal do Povo.