Marco Gonçalves*
Foi com grande pesar que eu e outros artistas da cena ituana recebemos a notícia do falecimento de João Bernardi, ocorrido na tarde da última quarta-feira (27), aos 72 anos. João convivia há 20 anos com um enfisema pulmonar, o que não o impedia de manter o bom humor e uma intensa produção artística, divulgada diariamente pelas redes sociais. Há cerca de um mês e meio, tivemos nosso último contato presencial, quando o visitamos em sua residência para adquirir uma de suas esculturas em varvito.
A curiosidade sobre sua experiência com o varvito e nosso mútuo interesse pelo uso artístico dessa rocha característica da paisagem ituana me levou a recolher um depoimento seu em abril de 2024. Essa fala generosa fez parte, ao lado de alguns de seus trabalhos, de uma exposição que organizei no primeiro semestre deste ano. A seguir, a íntegra do depoimento de João Bernardi.


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Nasci em Itu em 21 de agosto de 1953. Sou artista plástico autodidata, trabalhei de 1968 a 1996 com pintura a óleo, acrílica e desenho. Em uma visita ao ateliê do amigo restaurador e escultor Walter Flores, me encantei com um oratório em varvito confeccionado por ele.
Comecei então as tentativas de esculpir alguma coisa nesse material, em novembro de 1996. As primeiras oito peças foram um fracasso, quebraram no meio do processo. Na nona tentativa, consegui concluir.
Em visitas à antiga jazida de extração, conversando com o proprietário, senhor Osmar Peixoto, fui recebendo dicas de aprimoramento, pois ele tinha 35 anos de experiência no ramo. Produzia ali mesas, bancos, pias e outras coisas em varvito. O material que ele usava era o básico, todo o processo era manual: um formão ¼ para madeira, malho, grossas e lixas.
O Parque do Varvito, nesse período, era visitado por em média 3 mil turistas por fim de semana, inclusive muitos estrangeiros. Esse tipo de rocha é encontrada em poucos lugares no mundo. Na execução das esculturas aconteciam várias ocorrências: aparição de seixos caídos incrustrados entre as camadas, meteoritos metálicos, mais comumente icnofósseis – rastros de pequenos insetos, e, mais raramente, folhas e sementes. Também havia descontinuidades entre as camadas, resultado de pequenos abalos sísmicos, milhões de anos atrás.
Trabalhei com varvito até novembro de 2005. Foram nove anos e 4.049 peças, esculturas de porte médio – entre 20cm e 35cm –, figuras humanas, animais, objetos como porta-canetas, cinzeiros, incensários, porta-joias, vasos etc. Foram anos muito gratificantes. Recebi uma menção honrosa da Câmara Municipal por divulgar, com meus trabalhos, a cidade de Itu no Brasil e no exterior.
Fiz uma exposição individual em maio de 1998, no Unishopping, em Itu, organizado por Regina Roveli e meu irmão Roberto Bernardi. De maio a setembro de 2000, expus minhas peças na feira do Carmo e, depois, no próprio Parque do Varvito, até novembro de 2005. Nesse mesmo mês e ano, tive que parar com as esculturas devido ao pó da pedra que inalava, por não me proteger adequadamente. Contraí enfisema pulmonar. Atualmente me dedico apenas às aquarelas.
*Marco Gonçalves é artista visual e há cinco anos mantém suas atividades em Itu.
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