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Espaço Acadil | As crianças de hoje não são como as de antigamente

Entre pedrinhas e pixels, o tempo muda — mas o encanto da infância resiste.

Outro dia, eu me peguei dizendo isso em voz alta, quase sem querer.

A frase saiu como quem tira o pó de uma lembrança antiga e percebe que ela ainda está viva. Ficou rondando meus pensamentos o resto do dia, como uma canção da infância que insiste em tocar mesmo depois do silêncio.

Minha infância foi em Cabreúva, nos anos 1950 — uma cidadezinha do interior de São Paulo onde o tempo parecia se espreguiçar preguiçoso nas calçadas. Ali, aprendi o mundo com os pés descalços, os joelhos ralados e os bolsos cheios de pedrinhas, sementes e pequenos segredos.

Brincávamos com o que havia, e quando não havia, inventávamos. O dia começava cedo e terminava só quando a luz do lampião se acendia — e mesmo assim, a gente ainda insistia em mais um pouquinho de rua, mais um pouco de riso.

Hoje sou avô. Tenho três netos pequenos — um com cinco anos, outro com quatro, e ainda outro com três. Três mundos inteiros começando a se abrir, três infâncias que florescem diante dos meus olhos, tão diferentes da que eu vivi… e tão parecidas, quando olho com calma.

Eles já nasceram cercados de telas. O brilho do celular parece natural pra eles, como se fizesse parte do ar. Sabem navegar antes de saber escrever o próprio nome. Aprendem canções no YouTube, veem desenhos a qualquer hora, usam assistentes virtuais. E ainda assim… ainda se encantam com uma bola lançada, com um gato que aparece na janela, com uma história bem contada antes de dormir. A diferença está no cenário — o riso, o espanto, o desejo de descobrir continuam os mesmos.

A tecnologia alterou as formas da infância — os brinquedos, os sons, o ritmo —, mas não o sentimento que a sustenta.

O que antes era brincadeira de rua virou jogo online; o que antes era curiosidade por pedrinhas, sementes e segredos virou fascínio por pixels, telas e cliques.

E mesmo assim, o desejo de descobrir o mundo, o brilho nos olhos, a amizade que se forma no improviso — tudo isso permanece.

Roberto Melo Mesquita
Cadeira Nº 33 I Patrono Capitão Bento Dias Pacheco

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