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Espaço Acadil | A igreja suspensa

Durante muitos anos, sem perceber, acompanhei uma igreja. Não entrava nela, não rezava ali, não sabia sequer seu nome. Ainda assim, ela me acompanhava.

Sou professor na Fundação Getulio Vargas desde 2008. A partir de 2010, quando começaram as obras no antigo Hospital Matarazzo, passei a vê-la diariamente. Do nono andar, na Rua Itapeva, meu olhar invariavelmente se desviava para a pequena construção, discreta, quase tímida, cercada por tapumes, máquinas e um vazio urbano improvisado, onde eu mesmo estacionava o carro.

Com o avanço das obras, algo inusitado aconteceu. A terra começou a ser escavada. Andares inteiros foram cavados para baixo. E a igreja não foi removida, foi estaqueada. Sustentada. Suspensa.

A engenharia fez o trabalho com precisão. Mas, para quem observava de longe, havia algo de inquietante na cena. A igreja parecia flutuar. Presa ao nada. Dependente de cálculos, concreto e confiança. Confesso que aquilo me causava certo medo. Sempre que olhava, torcia silenciosamente para que ela resistisse. Como se torce por alguém que atravessa situação delicada. Como se torce por algo que não se quer perder.

Com o passar dos dias, comecei a desconfiar de outra coisa. Talvez não fosse apenas eu quem a observava. Talvez fosse ela que, suspensa no ar, silenciosa, me olhasse de volta. Como se reconhecesse, naquele olhar insistente, uma forma discreta de vigília mútua.

As obras seguiram, o espaço foi transformado, o complexo ganhou nova vida. E a igreja continuava lá. Íntegra. Firme. Como se tivesse atravessado, comigo, todos os anos de observação silenciosa.

Só mais tarde descobri seu nome: Capela de Santa Luzia, ou Lúcia, como é conhecida na tradição italiana, nome antigo, atravessado por séculos, nome que, de repente, deixou de ser apenas histórico, era também o nome da minha bisavó. E a coincidência, pequena e íntima, trouxe à história uma camada inesperada de proximidade.

Pouco tempo depois, descobri um problema na minha visão e, quase como quem junta peças espalhadas, que Santa Luzia é a protetora dos olhos. Foi então que tudo ganhou outra espessura. A igreja que sempre esteve diante do meu olhar. O olhar que, sem saber, sempre a buscava. A fragilidade. A proteção.

Há ainda uma música antiga, italiana, que fala de Nápoles, do bairro de Santa Lucia. “Sul mare luccica…”. Não sei exatamente como ela me veio. Talvez meu nono a cantarolasse para mim, em algum momento distante. Só sei que a melodia sempre esteve no meu imaginário, como certas lembranças que não sabemos precisar, mas que insistem em permanecer.

O dia 13 de dezembro é dedicado a Santa Luzia, mas algumas histórias não se resolvem em datas, ficam suspensas — como aquela igreja — até que a gente esteja pronto para enxergar.

E, às vezes, basta uma canção para que isso aconteça.

Plinio Bernardi Jr.
Cadeira nº 07 | Patrono: Constantino Ianni

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