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Cinerama | Valor Sentimental: competente e sofisticado, mas falta originalidade

NOTA: ✪✪✪

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional e outras oito categorias, o norueguês “Valor Sentimental” é um drama que se sustenta menos pela originalidade de sua proposta e mais pela forma segura e sofisticada com que trabalha temas já amplamente explorados pelo cinema contemporâneo. 

Ao acompanhar o relacionamento fraturado entre Gustav e suas filhas, o filme aposta em um terreno conhecido: o ressentimento acumulado, as ausências não resolvidas e as tentativas tardias de reparação emocional. Não há, nesse sentido, grandes surpresas narrativas. O roteiro percorre caminhos previsíveis quando aborda as feridas deixadas por um pai emocionalmente distante, reforçando a sensação de déjà-vu para quem já viu variações semelhantes desse conflito em outros filmes autorais europeus.

Ainda assim, a obra se impõe pela densidade de seus diálogos e, sobretudo, pela força de suas atuações. Stellan Skarsgård constrói um Gustav carismático e ao mesmo tempo profundamente egoísta, alguém incapaz de separar o artista do pai, usando o cinema como extensão de suas falhas afetivas. Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas oferecem retratos distintos, porém igualmente contundentes, de filhas marcadas por esse abandono emocional. Já Elle Fanning, como a atriz americana que adentra esse núcleo familiar disfuncional, funciona como um espelho externo que evidencia o quanto aquelas relações estão contaminadas por décadas de silêncios e frustrações.

O filme também ganha interesse ao refletir sobre o próprio fazer cinematográfico. Ao inserir Gustav em meio às negociações para financiar seu novo projeto, “Valor Sentimental” toca em questões atuais sobre a sobrevivência do cinema autoral em tempos dominados pelos serviços de streaming, sugerindo paralelos entre a crise criativa do diretor e sua incapacidade de se reconectar com as filhas. No entanto, essa camada metalinguística, embora pertinente, permanece mais como pano de fundo do que como eixo central da narrativa.

No conjunto, trata-se de um filme tecnicamente sólido, bem interpretado e intelectualmente honesto, mas que dificilmente deixa marcas duradouras. Sua força está menos no que diz e mais em como seus atores dão vida a personagens cheios de contradições. É um bom drama, competente e respeitável, porém incapaz de transcender o lugar-comum de sua temática, tornando-se, ao fim, uma experiência correta, porém facilmente esquecível.

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