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Após mais de cinco décadas, orelhões começam a dizer adeus das ruas do Brasil

O Orelhão de Itu foi produzido na mesma fábrica dos orelhões convencionais (Foto: André Roedel)

A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) decretou o fim dos conhecidos e consagrados aparelhos orelhão, que por mais de cinco décadas foram usados de norte a sul do país por milhões de usuários. A a retirada dos orelhões ainda não começou, será feita ao longo do ano. A desativação total deverá acontecer em 2028.

O motivo tem tudo a ver com a popularização da internet e dos aparelhos de telefonia celular, que contrasta seu crescimento com a queda do uso dos populares aparelhos de fichas e cartões. Os contratos com as operadoras que incluíam a manutenção dos orelhões foram firmados em 1998 e terminaram no fim de dezembro de 2025.

Em nota, a Vivo, operadora de telefonia de São Paulo, informou que a migração do modelo de concessão para o regime de autorização, formalizada pelo Termo de Autorização nº 1/2025 da Anatel, prevê investimentos obrigatórios em tecnologias 4G ou superiores e na ampliação da infraestrutura de fibra óptica, com foco na digitalização do país.

Com a mudança, foram encerradas as obrigações de expansão e manutenção dos Telefones de Uso Público (TUPs), os chamados orelhões. Segundo a empresa, o novo modelo permitirá redirecionar recursos para a ampliação das coberturas 4G e 5G em mais de mil municípios, além do aumento da capacidade de rede e da modernização da infraestrutura de fibra em diversas localidades.

A Vivo afirmou ainda que manterá, até o fim de 2028, os TUPs ativos em áreas atendidas exclusivamente pela operadora, apesar do uso praticamente inexistente desses equipamentos.

No estado de São Paulo, havia cerca de 28 mil orelhões em operação até dezembro de 2025. De acordo com a empresa, a utilização desses aparelhos caiu 93% nos últimos cinco anos. A retirada das unidades seguirá as normas da Anatel e ocorrerá de forma gradual ao longo do ano, conforme critérios operacionais, de segurança e de conformidade regulatória.

Muita história

Lançado oficialmente em janeiro de 1972, o orelhão marcou uma revolução no acesso à telefonia pública no Brasil e se tornou um dos maiores ícones da paisagem urbana do país. As primeiras unidades começaram a operar no Rio de Janeiro em 20 de janeiro e, poucos dias depois, em 25 de janeiro, chegaram às ruas de São Paulo.

O projeto foi desenvolvido pela arquiteta Chu Ming Silveira, então responsável pelo setor de projetos da Companhia Telefônica Brasileira (CTB). Antes do orelhão, a telefonia pública era restrita a cabines fechadas ou aparelhos instalados em estabelecimentos comerciais, o que limitava o acesso da população. 

Em Itu, por exemplo, a CTB funcionava na Rua Floriano Peixoto, esquina com XV de Novembro, o popular Becão. Lá as pessoas encontravam as cabines onde eram efetuadas as chamadas, antes da chegada dos orelhões. Mesmo assim, ainda funcionou a central telefônica de Itu naquele endereço por bom tempo.

Durante décadas, o orelhão foi indispensável para emergências, contatos pessoais e profissionais, especialmente em um período em que o telefone residencial ainda era privilégio de poucos. Com o avanço da telefonia móvel e da internet, seu uso entrou em declínio a partir dos anos 2000, levando à retirada gradual de milhares de unidades.

Pelo Brasil chegaram a ser 200 mil orelhões, espalhados por todos os estados.  Ainda há 38,3 mil deles, a maioria no estado de São Paulo, que estão sendo desativados gradativamente. Segundo a Anatel, cerca de nove mil orelhões continuarão funcionando em cidades onde não há, pelo menos, o sinal 4G para a rede móvel. A maioria desses terminais telefônicos está no Estado de São Paulo.

Ícone de Itu

A história do orelhão tem relação com Itu, pois o maior orelhão do Brasil está localizado na Praça Padre Miguel e tornou-se símbolo da “cidade onde tudo é grande”, imortalizada pelo comediante Francisco Flaviano de Almeida, o Simplício.

Em 1973, devido ao sucesso do programa “Praça da Alegria” (TV Nacional e posteriormente TV Record), onde Simplício e Valéria Luercy interpretavam o casal de caipiras Ozório e Ofélia, e enalteciam exageradamente as grandezas da cidade de Itu para Manoel de Nóbrega, no banco da praça, o então ministro das comunicações Higino Corsetti presenteou a cidade com um exemplar gigante do orelhão, situado na Praça da Matriz. Na mesma época a cidade também ganhou, na mesma praça, um semáforo gigante. O orelhão de Itu originariamente era da Telesp, passou a ostentar as cores da Telefônica e depois Vivo, mas hoje voltou a ter a marca da antiga Telesp. 

Segundo Maria do Carmo Piunti, que na época era a primeira-dama da cidade, “Itu foi escolhida como cidade-piloto para a implantação do DDD (Discagem Direta à Distância), pois era um município próximo a São Paulo e com uma população menor que a capital e cidades da Grande São Paulo.” Ela lembra que “o Simplício, que era assessor sem remuneração do prefeito Piunti, teve a ideia da criação de um telefone gigante para a cidade e essa ideia foi abraçada pelo então ministro das Comunicações Hygino Corsetti.”

Olavo Volpato já não era prefeito da cidade, mas lembra que o orelhão de aproximadamente sete metros foi entregue à cidade em 11 de fevereiro de 1973. O então Ministro Hygino Corsetti veio à cidade para a entrega do presente. Volpato lembra que “no início o projeto deveria ter uma escada ao lado do orelhão com um telefone normal lá em cima, onde as pessoas deveriam subir para fazer as ligações, mas isso foi inviabilizado pois havia o risco de quedas e acidentes”. 

O Orelhão foi produzido na mesma fábrica dos orelhões convencionais e instalado pela estatal de telecomunicações da época, a Telesp. Em seu discurso de entrega, Corsetti, bem-humorado, disse “o Brasil é grande, mas eu sei que Itu é maior.” 

Isso reforçou tanto o humor regional quanto a ideia de que o orelhão gigante era uma homenagem à peculiar identidade cultural de Itu – capitalizando a fama da cidade por seus objetos de tamanho exagerado.

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