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Ituano integra equipe de documentário que estreia no Festival de Gramado 2026

Para Marco Sartori, a expectativa é que o documentário tenha uma longa trajetória (Foto: Arquivo pessoal)

O cinema produzido no interior paulista ganhou espaço em uma das principais vitrines do audiovisual brasileiro. O técnico de som direto ituano Marco Aurélio Sartori, de 40 anos, integrou a equipe de “Afrontosa”, documentário dirigido por Coraci Ruiz e Julio Matos, que teve sua estreia brasileira no 54º Festival de Cinema de Gramado, realizado no Rio Grande do Sul.

Selecionado para a Mostra Competitiva de Documentários Brasileiros, o longa-metragem estreou em 19 de agosto e colocou novamente o trabalho de profissionais do interior em evidência. A participação também marcou um momento especial na trajetória de Sartori: embora seja seu primeiro ano presencialmente no festival, este é o terceiro ano consecutivo em que um filme do qual participou chega a Gramado.

“Afrontosa”, produzido pelo Laboratório Cisco, de Campinas, acompanha a trajetória de Suzy Santos, mulher trans, preta e periférica que viveu durante anos nas ruas, encontrou na militância um caminho profissional e se reinventou como gestora e figura política. A obra também aborda sua atuação no cuidado de pessoas em situação de vulnerabilidade em Campinas. O filme encerra uma trilogia dos diretores dedicada à cena trans campineira e chega ao circuito de festivais após a passagem pelo Cannes Docs.

Em “Afrontosa”, Sartori atuou como técnico de som direto, responsável pela captação do áudio durante as gravações. Ele explica, porém, que o trabalho foi construído por uma equipe, com a participação também de Maitê, Murilo, Marcel, Tonelo e do próprio diretor Julio Matos em algumas diárias.

“O som direto não foi feito só por mim no filme. Foram várias mãos. Eu fiz a maior parte das diárias, mais de 50% do filme, e foi uma gravação bastante extensa”, explica. Sartori esteve presente em mais da metade das diárias de gravação, acompanhando uma produção extensa e fundamental para a construção sonora do documentário.

Para o profissional ituano, participar da estreia em Gramado representa uma conquista que ultrapassa a dimensão individual. O festival, conhecido por reunir importantes nomes do cinema brasileiro e por lançar produções que ganham destaque no circuito nacional, funciona também como uma vitrine para o cinema independente produzido fora dos grandes centros.

“Ter um trabalho que participei estreado numa das principais telas de festivais é uma honra imensa. É a culminância do empenho de uma equipe em contar uma história poderosa e o atestado de que o cinema independente do interior é potente e criativo”, destaca Sartori.

Formado em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Sartori direcionou sua formação para a área de som no audiovisual, tanto na etapa de produção quanto na pós-produção.

Além de técnico de som direto, ele trabalha como editor de som e editor de diálogos. Desde o fim da graduação, essa tem sido sua principal área de atuação, participando de documentários, filmes de ficção, publicidade e diferentes formatos e plataformas audiovisuais.

Outros trabalhos

A relação com o Festival de Gramado vem sendo construída nos últimos anos. Em 2024, Sartori assinou o som direto de “Maputo”, curta-metragem de ficção dirigido por Lucas Abrahão. O filme recebeu naquele ano o Prêmio da Crítica da Abraccine de Melhor Curta-metragem no Cine Ceará.

Em 2025, ele integrou a equipe de “Até Onde a Vista Alcança”, documentário de longa-metragem também produzido pelo Laboratório Cisco. O filme teve uma trajetória por diferentes festivais, incluindo premiações e exibições no Brasil e no exterior.

Outro trabalho de destaque na carreira do ituano é “Dona Elza”, média-metragem produzido em parceria com a Globo e com participação da EPTV de Campinas. O projeto reuniu profissionais de diversas cidades do interior paulista, incluindo Itu, Sorocaba, Campinas, Marília, Socorro e Piracicaba, entre outras. A equipe chegou a reunir cerca de 30 a 40 pessoas.

Para Sartori, a produção teve um significado especial justamente por representar o interior não apenas como cenário, mas como espaço de criação e produção cinematográfica. “Foi muito legal ver a gente retratado na tela de uma das maiores emissoras do país. Um filme feito por pessoas do interior, feito no interior, com um cenário realmente interiorano e uma temática também bastante caipira”, recorda.

A experiência reforçou, para ele, a importância de valorizar profissionais e produções que surgem longe dos grandes polos cinematográficos brasileiros. Depois da estreia em Gramado, “Afrontosa” começa uma nova etapa. A produção está sendo inscrita em outros festivais e deve continuar circulando pelo país e pelo exterior.

Em setembro, o documentário terá exibições especiais em Campinas. Uma delas será realizada na Vila Brandina, território onde Suzy Santos vive, enquanto outra ocorrerá em um centro de convivência (no dia 15 de setembro), com participação de pessoas em situação de rua e de pessoas que enfrentam questões relacionadas ao uso de drogas – públicos que dialogam diretamente com personagens e temas apresentados pelo filme. Também está prevista uma sessão em um teatro na região central de Campinas, em uma programação aberta ao público.

A escolha dos locais reforça uma das características mais importantes de “Afrontosa”: levar a história de Suzy de volta aos territórios e às pessoas que fazem parte dela.

Para Marco Sartori, a expectativa é que o documentário tenha uma longa trajetória. “Espero que Afrontosa continue levando a história da Suzy para novos territórios, que influencie e toque as pessoas de diferentes maneiras”, afirma.

“O cinema independente do interior paulista é diverso e plural, com espaço para diferentes vozes e pessoas aptas para contar essas histórias. Confio na nossa potência e criatividade, e aos poucos nossas narrativas vão chegando à todos os lugares, ocupando festivais de renome e dividindo tela com figuras já estabelecidas do nosso cinema”, conclui Sartori.

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