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Coincidências e dualidades

Eu acredito em coincidências. Na mera e aleatória coincidência, que joga por terra nossa aptidão para enxergar razões sobrenaturais ou paranormais para algumas sincronicidades da vida. Em outras palavras, muitas vezes, as coisas são simplesmente como são.

Faço essa breve introdução antes de escrever sobre o real tema deste texto, que é sobre João Tibiriçá Piratininga, personalidade política da província paulista e de Itu na segunda metade do século XIX.

Mas onde as coincidências entram nisso?

Bem, Tibiriçá Piratininga é patrono da cadeira que hoje ocupo na Academia Ituana de Letras, cujo aniversário data de 7 de agosto. Assim, fui incumbido de escrever sobre ele, falar das coincidências e das ambivalências humanas das quais meu patrono não escapou (assim como não escapa qualquer ser humano).

E aqui vem a primeira coincidência e mais assombrosa coincidência: Tibiriçá Piratininga foi extremamente dual, ambíguo, assim como eu, com meus milhares de defeitos e incoerências, também sou. Oligarca e, ao mesmo tempo, apegado às novas e arejadas ideias do final do século XIX; enraizado em um país, província e cidade conservadores e cuja estrutura social em nada foi alterada com a República, e, ainda assim, considerado à frente de seu tempo pelos seus contemporâneos. Exemplo ilustrativo de um Brasil que segue adiante, mas não rompe com o colonialismo e suas capitanias hereditárias.

Vamos à segunda coincidência: apesar de ter seu nome ligado a Itu, Tibiriçá nasceu em Indaiatuba, cidade de origem do meu lado paterno. Sua origem e a dança entre cidades não deixam de revelar dualidades e ambivalências por si. Inexpressiva no século XIX, Indaiatuba desponta como exemplo de progresso no estado, enquanto Itu, antes referência na província, opta por idolatrar seu passado.

Prossigo. No fervor de seu viés crítico e debatedor, João Tibiriçá Piratininga foi fundador do jornal A Província de São Paulo, onde se derramaram ideias republicanas que ganharam vulto (e conquistaram o coração do latifundiário) a partir do Manifesto Republicano de 1870. E não é que eu, como jornalista, também fui sócio em um projeto de jornal por três anos? Todavia, ao contrário de meu patrono, nunca me dei com a política e suas vertentes menos ortodoxas.

Confesso que pessoas como ele me fascinam. Complexas, nada perfeitas, cheias de dualidades e, ainda assim, capazes de marcar seus nomes na história. 

Nisso, aliás, não reside coincidência alguma. João Tibiriçá Piratininga é um expoente cujo nome sempre será lembrado; quanto a mim, caminho anônimo, mas grato, por tê-lo como patrono, alegrias que, vez ou outra, a literatura e a escrita nos dão. E, obviamente, feliz pelas pequenas coincidências que a vida me dedicou. 

Paulo Stucchi
Cadeira Nº 29 | Patrono: João Tibiriça Piratininga

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