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Dia do Quadrinho Nacional: obras atuais destacam diversidade temática e regional

Celebrado em 30 de janeiro, o Dia do Quadrinho Nacional é comemorado pelos fãs da nona arte todos os anos desde 1984, quando a comemoração foi criada simbolicamente pela Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo (AQC-SP). No ano seguinte, a AQC instituiu o Prêmio Angelo Agostini, uma das principais premiações para autores e desenhistas de quadrinhos no Brasil.

A data foi escolhida já que o quadrinista Angelo Agostini, um italiano naturalizado brasileiro, publicou, a partir de 30 de janeiro de 1869, “As Aventuras de Nhô-Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte”, considerada a primeira história em quadrinhos brasileira de longa duração e uma das primeiras em âmbito mundial. A história foi publicada pela revista “Vida Fluminense” até janeiro de 1872, com algumas interrupções, totalizando 14 capítulos.

A data deve ganhar caráter oficial em 2026. Um projeto de lei aprovado na Câmara dos Deputados já está no Senado e pode ser votado pelos senadores neste primeiro semestre. A autora do PL 2.328/2024 é a deputada federal Juliana Cardoso (PT-SP).

“A propositura de 30 de janeiro como o Dia do Quadrinho Nacional reconhece historicamente a luta dos produtores de cultura e dos movimentos artísticos organizados envolvidos com a área das histórias em quadrinhos”, afirma a deputada na justificativa do projeto.

Juliana Cardoso afirma que o Brasil é um dos pioneiros na criação das histórias em quadrinhos, sendo Nhô Quim considerada a primeira história em quadrinhos brasileira, dividindo a primazia mundial com a primeira história em quadrinhos conhecida: “Max und Moritz”, de Wilhelm Bush, publicado na Alemanha em 1865.

Relevância cultural

Os quadrinhos têm se consolidado como um campo cultural e econômico de grande relevância, ultrapassando há tempos a ideia de entretenimento exclusivamente infantil. No Brasil, o setor vive um momento de maturidade criativa, impulsionado por editoras independentes, políticas de incentivo cultural e reconhecimento internacional. 

As HQs nacionais dialogam com temas sociais, históricos e identitários, alcançando novos públicos e espaços antes restritos à literatura e ao cinema. Obras como “Daytripper”, de Fábio Moon e Gabriel Bá, “Angola Janga”, de Marcelo D’Salete, e “Cumbe”, do mesmo autor, exemplificam a capacidade dos quadrinhos brasileiros de unir qualidade estética, densidade narrativa e reflexão crítica.

Além do impacto cultural, os quadrinhos brasileiros apresentam forte potencial de expansão no mercado editorial e audiovisual. Adaptações, traduções e premiações internacionais ampliam a visibilidade dessas produções, enquanto eventos, feiras e festivais fortalecem a cadeia criativa e econômica do setor. 

Títulos de autores como André Diniz, Jefferson Costa, Shiko, Danilo Beyruth e Marcello Quintanilha reforçam a diversidade temática e regional da produção nacional, demonstrando que os quadrinhos brasileiros não apenas refletem a realidade do país, mas também se afirmam como linguagem potente para narrar histórias universais.

Dicas de leitura

Para celebrar a data, três fãs de quadrinhos compartilharam sugestões com a reportagem. Fer Caparroz mora em Sorocaba, mas sua família é de Itu. Desde 2020, participa de zines e publica quadrinhos de forma independente, sendo os dois últimos “Quando Vieram Buscar Maria” e “Piloto”. Suas histórias são ambientadas no interior paulista e têm identificação visual com o que o autor cresceu vendo. Como sugestão, ele deixa “Pinacoderal: Rudimentos da linguagem”, que saiu pela editora Pé de Cabra em 2019, compilando o trabalho de Diego Gerlach. 

Fer Caparroz e o quadrinho “Pinacoderal: Rudimentos da linguagem”

“‘Pinacoderal’ é um lugar ao mesmo tempo que é um conjunto de experimentações em quadrinhos, sendo impossível não se sentir um habitante de Pinacoderal tal qual o Lobisomem, Boy rochedo e o Zuêro. O traço do Gerlach é inspirador e instigante, é o link perfeito entre tatuagens feitas em cadeia e Steve Ditko [um dos criadores do Homem-Aranha]. Eu recomendaria pra qualquer um que tenha interesse no quadrinho underground e acima de tudo quadrinho nacional”, afirma.

Jean Jeferson e o quadrinho “Dormindo Entre Cadáveres”

Um dos idealizadores do Itu Nerd Fest e da Caramelo Con (evento que ocorre em São Paulo), Jean Jeferson da Silva também traz sua dica. “Ao falar de quadrinhos nacionais, é impossível não trazer à mente ‘Dormindo Entre Cadáveres’, de Felipe Parucci e do médico Luís Moreira Gonçalves, lançado pela Comix Zone no ano passado. A obra é baseada na experiência real de Luís na linha de frente do combate à pandemia, no coração da Amazônia, durante o auge da crise sanitária”, comenta.

Segundo ele, trata-se de uma das leituras mais impactantes que fez recentemente. “Um quadrinho que evidencia, de forma contundente, o poder dessa mídia como linguagem artística e narrativa. Essa história permaneceu comigo muito além da leitura da última página. Recomendo fortemente e sigo na torcida para que receba o reconhecimento que merece em premiações como o Jabuti, assim como ‘Como Pedra’, de Luckas Iohanathan, vencedor em 2024 e outro exemplo brilhante da força dos quadrinhos brasileiros”, encerra.

André Roedel e o quadrinho “Mais uma história para o velho Smith”

Por fim, outro organizador do Itu Nerd Fest, André Roedel, destaca uma obra do quadrinista Orlandeli, “Mais uma história para o velho Smith”. “A obra une texto afiado e ilustrações incríveis em um quadrinho singelo e cheio de verdades, que segue a jornada de um marinheiro que não se lembra mais de suas próprias histórias. Vencedor do Jabuti em 2025, é uma grande ode às memórias. Mais do que isso: da importância de preservá-las através das histórias. Vale a pena conferir – e refletir”, aponta o ocupante da cadeira de Expressões Literárias e HQs do Conselho Municipal de Política Cultural de Itu – CMPC.

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