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Cinerama | O Último Azul: fábula sobre o direito de sonhar

NOTA: ✪✪✪

Em “O Último Azul”, o diretor Gabriel Mascaro retorna ao terreno da distopia social para investigar, mais uma vez, as engrenagens do controle estatal sobre os corpos e os destinos individuais. Ambientado em um Brasil futurista – mas assustadoramente plausível -, o filme imagina uma política pública de exílio compulsório de idosos, retirados do convívio social sob o argumento de liberar os mais jovens para a produtividade plena. A premissa é potente, provocadora e dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre etarismo, utilitarismo econômico e a desumanização promovida por discursos tecnocráticos.

A narrativa acompanha Tereza, interpretada por Denise Weinberg com entrega absoluta. Aos 77 anos, a personagem vive em uma cidade industrializada na Amazônia, espaço que Mascaro filma como território de tensão entre progresso e esvaziamento humano. Quando recebe a notificação que a obriga a deixar sua casa e seguir para uma colônia de idosos, Tereza decide adiar o inevitável para realizar um último desejo. A viagem fluvial que se segue pelos rios e afluentes da região funciona tanto como deslocamento físico quanto como jornada simbólica de afirmação de identidade e liberdade.

O problema é que “O Último Azul” parece mais interessado em lançar ideias do que em desenvolvê-las plenamente. O roteiro sugere questões profundas, mas raramente se aprofunda nelas. Os diálogos, em diversos momentos, soam artificiais, quase esquemáticos, enfraquecendo a força dramática de situações que pediriam maior densidade emocional. Denise Weinberg sustenta o filme com sua presença magnética, mas luta contra um texto que nem sempre acompanha a complexidade de sua personagem.

A participação de Rodrigo Santoro é breve, ainda que marcante. O ator rouba a cena na curta aparição, deixando a sensação de um potencial desperdiçado. Do ponto de vista técnico, o longa também apresenta limitações, especialmente na mixagem e no desenho de som, problemas recorrentes em produções de orçamento mais contido e que, aqui, prejudicam a imersão em alguns momentos-chave.

Ainda assim, seria injusto descartar “O Último Azul”. Mesmo com suas falhas, Mascaro constrói uma fábula inquietante sobre resistência ao autoritarismo e sobre o direito de sonhar – e desejar – mesmo na velhice. O Urso de Prata recebido em Berlim talvez reconheça menos o filme acabado e mais o gesto artístico e político que ele propõe: um alerta sensível sobre um futuro que, se não for questionado, pode deixar de ser apenas ficção.

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